Dia do Psicólogo: terapia ganha espaço, mas acesso ainda é desafio
Profissionais destacam importância da prevenção e alertam para riscos de usar inteligência artificial como substituta da terapia

Por Redação Clube FM - Brasília
- Atualizado
O Dia do Psicólogo, que é celebrado nesta quinta-feira (27/8), coloca em evidência a importância do cuidado com a saúde mental e os desafios para ampliar o acesso à psicoterapia. Apesar de a terapia estar cada vez mais presente nas conversas sobre bem-estar, profissionais ainda enfrentam o preconceito em torno do atendimento e a dificuldade de parte da população para encontrar acompanhamento de qualidade.
Para a psicóloga Flávia Marsola, a data ajuda a mudar a percepção de que procurar terapia significa estar em uma situação extrema. “Terapia não é uma reparação de emergência, é um espaço de prevenção, autoconhecimento e desenvolvimento emocional”, afirma ao Correio.
A psicóloga clínica Laynara Paiva, que atua na área há cerca de dez anos, também considera importante tratar a psicoterapia como uma forma de cuidado, e não apenas como resposta ao sofrimento intenso. Segundo ela, ainda existem ideias equivocadas que associam o tratamento a fraqueza ou incapacidade de resolver os próprios problemas.
“A psicoterapia não é sobre isso. É um espaço de cuidado, autoconhecimento e elaboração”, diz ao Correio.
Para as profissionais, a busca por ajuda não precisa esperar que a pessoa chegue ao limite. A terapia pode auxiliar na compreensão de comportamentos, relacionamentos, emoções e padrões que se repetem ao longo da vida.
Ao mesmo tempo, Flávia faz uma ressalva: nem todo sofrimento representa um transtorno mental. Com a popularização de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais, aumentou também a tendência de pessoas identificarem sintomas e fazerem diagnósticos por conta própria.
“Nem todo comportamento é sintoma. Uma avaliação de verdade exige contexto, história de vida e acompanhamento”, afirma.
Acesso ainda é um dos principais obstáculos
Embora o debate sobre saúde mental tenha crescido, conseguir atendimento continua sendo um desafio. O preço das sessões particulares, a dificuldade de acesso pela rede pública e a oferta limitada de profissionais são alguns dos fatores que afastam pacientes da terapia.
Laynara também chama atenção para as condições de trabalho dos próprios psicólogos. Segundo ela, a categoria enfrenta problemas como baixa remuneração, repasses considerados insuficientes pelos planos de saúde e falta de um piso salarial unificado.
“Isso dificulta muito a entrega de um trabalho de excelência, o investimento em estudos e especializações e a oferta de um atendimento de qualidade, ético e sustentável profissionalmente”, afirma.
Já para a psicóloga e neuropsicóloga Juliana Gebrim, a dificuldade de acesso também passa pelas diferentes condições financeiras e sociais dos pacientes. Ela defende o fortalecimento da rede pública e a ampliação das modalidades de atendimento.
“Cuidar da saúde mental não pode ser um privilégio de quem pode pagar. Precisa ser um direito de todos”, diz ao Correio.
Além do atendimento particular, as psicólogas citam alternativas como as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), clínicas-escola de universidades, projetos sociais e profissionais que oferecem vagas ou valores sociais e plataformas on-line que oferecem sessões de terapia a custo social.
Juliana também destaca o avanço do teleatendimento em saúde mental pelo SUS, por meio do Meu SUS Digital, como uma possibilidade para pessoas que enfrentam dificuldades de deslocamento ou acesso presencial. A modalidade, porém, não atende necessariamente a todas as situações.
Flávia reforça que ampliar o acesso não deve significar reduzir a qualidade do atendimento. “Democratizar saúde mental não pode virar oferecer cuidado fraco”, afirma.
Quando a IA vira companhia
Com todas as dificuldades para encontrar atendimento, outro fenômeno ganhou força: pessoas que recorrem à chatbots para desabafar, falar sobre problemas pessoais e buscar orientação.
A disponibilidade permanente, a rapidez nas respostas e a sensação de não estar sendo julgado estão entre os motivos que levam usuários a procurar as ferramentas, segundo as psicólogas.
Para Laynara, a popularização desse comportamento revela uma necessidade humana básica: ser ouvido. “A IA está disponível praticamente a qualquer hora, não julga, responde rapidamente e pode dar à pessoa uma sensação imediata de acolhimento”, afirma.
O problema aparece quando essa conversa passa a ser tratada como psicoterapia. Segundo as profissionais, uma resposta bem formulada não equivale a uma avaliação psicológica ou a um processo terapêutico.
“A IA não conhece a história daquela pessoa, não faz uma avaliação psicológica e não assume a responsabilidade pelo cuidado”, explica Juliana.
Flávia aponta ainda riscos como informações incorretas, interpretações inadequadas de situações complexas e incentivo à confirmação de ideias que o próprio usuário já possui. Em crises, ideação suicida ou transtornos graves, ela considera perigoso utilizar a ferramenta como tratamento.
“A IA pode ser uma ferramenta útil para organizar pensamentos. Nunca será tratamento”, afirma.
As profissionais, no entanto, não descartam o uso da tecnologia. Elas consideram que a IA pode auxiliar na organização de pensamentos, na busca por informações sobre saúde mental, no registro de emoções e até na preparação de questões para levar a uma sessão.
A diferença está no papel atribuído à ferramenta. Na psicoterapia, o profissional acompanha a história do paciente ao longo do tempo, observa padrões de comportamento e estabelece uma relação terapêutica baseada em escuta, vínculo e responsabilidade ética.
“Vejo a IA como uma ferramenta de apoio, mas não como substituta do psicólogo”, afirma Juliana.
Para Laynara, o encontro com o profissional também permite trabalhar aspectos que não aparecem apenas nas palavras. “A relação com o psicólogo também é parte do próprio tratamento”, diz.
Por Nathallie Lopes - Via Correio Braziliense










